Numa dessas outras vidas aí da vida, fui Doutor, de residência e tudo. Ginecologista. De respeito. Daqueles que andam com currículos recheados no bolso, prontos a sacá-los, como armas em pê-emes, a fim de provar que são menos ninguéns que outrens quaisquer.
Certa vez, aparece-me uma senhora mal-vestida. Mas mui-trajada. Grávida, por sinal. Mas é que a barriga parecia ser o acessório da montanha de roupas que ela punha.
*
Lancei-me logo às perguntas:
EU. Consulta de rotina, madame? Algum problema na gestação? Problemas extra-barriga?
Costumava sempre fazer essa última pergunta. As clientes pareciam tratar-me como psicólogo: Doutor, de respeito, que era. Eram, na maioria, dúvidas extra-barriga. Não podia desprezá-las. Afinal, o respeito fazia minha fama.
SENHORA. Tudo na paz, Doutor. Graças a Deus.
EU. A que devo a consulta, então?
SENHORA. Doutor, é que mal posso esperar o gran momento. Essa ansiosidade me mata. Já dá pra saber quando paro?
EU. Perdão... Pára o quê?
SENHORA. Quando paro?
EU. Pára o quê?
SENHORA. Ué?! A criança, Doutor. O que mais poderia ser?
EU. Ah, quando você pare?
SENHORA. Paro o quê, Doutor?
EU. Quando parirá! A criança!
SENHORA. Como assim, criança, parar? O que o senhor quer dizer com isso? Tem algo errado com meu bebê? Se for, fale logo, Doutor. Tenho o direito de saber.
EU. Perdão, senhora. Quis dizer...
SENHORA. Shh. Silêncio, Doutor. Não consigo ouvir a criança.
SENHORA, esperneando. Ela parará? Não me diga isso?!
No momento, minha assistente, que não era dessas diplomadas, mas que cortava umbilicais como ninguém, ouve a senhora gritando e corre para socorrê-la.
ASSISTENTE. Pararáááááá! Chega! É hora! É hora!
Um remelexo na sala. As sub-assistentes ouvindo o avante da comandante, partiriam para a guerra. Mas estranharam a minha calma.
ASSISTENTE. Doutor, a criança! Não ouviu a senhora gritar dizendo que parará? Chega, Doutor! É hora!
No clímax das falsas contrações, implorei calma e gastei preciosos minutos para explicar todo o incidente verbal.
Parir: eu pairo; você pare; que você paira; ela parirá.
Parar: eu paro; você pára; que você pare; ela parará.
Costumava sempre fazer essa última pergunta. As clientes pareciam tratar-me como psicólogo: Doutor, de respeito, que era. Eram, na maioria, dúvidas extra-barriga. Não podia desprezá-las. Afinal, o respeito fazia minha fama.
SENHORA. Tudo na paz, Doutor. Graças a Deus.
EU. A que devo a consulta, então?
SENHORA. Doutor, é que mal posso esperar o gran momento. Essa ansiosidade me mata. Já dá pra saber quando paro?
EU. Perdão... Pára o quê?
SENHORA. Quando paro?
EU. Pára o quê?
SENHORA. Ué?! A criança, Doutor. O que mais poderia ser?
EU. Ah, quando você pare?
SENHORA. Paro o quê, Doutor?
EU. Quando parirá! A criança!
SENHORA. Como assim, criança, parar? O que o senhor quer dizer com isso? Tem algo errado com meu bebê? Se for, fale logo, Doutor. Tenho o direito de saber.
EU. Perdão, senhora. Quis dizer...
SENHORA. Shh. Silêncio, Doutor. Não consigo ouvir a criança.
SENHORA, esperneando. Ela parará? Não me diga isso?!
No momento, minha assistente, que não era dessas diplomadas, mas que cortava umbilicais como ninguém, ouve a senhora gritando e corre para socorrê-la.
ASSISTENTE. Pararáááááá! Chega! É hora! É hora!
Um remelexo na sala. As sub-assistentes ouvindo o avante da comandante, partiriam para a guerra. Mas estranharam a minha calma.
ASSISTENTE. Doutor, a criança! Não ouviu a senhora gritar dizendo que parará? Chega, Doutor! É hora!
No clímax das falsas contrações, implorei calma e gastei preciosos minutos para explicar todo o incidente verbal.
Parir: eu pairo; você pare; que você paira; ela parirá.
Parar: eu paro; você pára; que você pare; ela parará.
*
Em setembro daquele ano, enfim, a mulher pare. Mas ela não parou por aí. Continuou parindo. Ao longo de 3 anos, foi aquele primeiro e mais três. O útero da senhora dava um breve intervalo de 10 dias pra fingir que desinchava e lá desciam outros óvulos, recém-fecundados. O trenzinho da alegria seguia fumaçante. Pronto a atropelar quaisquer confusões verbais, a destroçar esse vai-e-vem de conjugações, a pôr água a baixo essa verbaçada. No fim, não importavam os verbos, a que eu, como Doutor de respeito que era, tinha me dedicado bastante.
Ao cabo de mais alguns meses, resolvi abandonar o ofício. Fui fazer carreira na política. Acho que tinha entendido o verdadeiro significado da palavra democracia.
Ao cabo de mais alguns meses, resolvi abandonar o ofício. Fui fazer carreira na política. Acho que tinha entendido o verdadeiro significado da palavra democracia.


3 comentários:
Eu queria comentar mas - é tão bom - eu - eu não consigo...
Difícil de comentar uma obra de arte. Já dizia o velho Landsvalth: "arte nao se explica, vive-se". Por isso, Vitória tem razão. Mas, na insistencia de procurar uma explicaçao, eu digo: preciso na literatura, erudito na gramática, criativo no estilo. O mais é ler e reler.
mais uma vez, antônio.
tirou-me as palavras.
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